sexta-feira, 11 de junho de 2010

Lendo os "Problemas da Poética de Dostoiévski"

Cap A idéia em Dostoiévski
Página 77

#1 - Bakhtin é um dos autores mais eruditos que já li. Estudar o "universo artístico" de Dostoiévski é provavelmente uma das operações intelectuais mais complexas e avançadas de toda a cultura humana, já que o autor se empenha em construir chaves reais, análises profundas, corretas, intensamente elaboradas em fusão com a própria percepção da realidade, procurando fugir de toda abstração vazia, de toda vaidade intelectual.

A polifonia é um concerto totalmente novo para a arquitetura de nossa racionalidade. A própria razão deixa de ser o cerne do conhecimento, e passa a ser mais uma das funções do conhecer. Não é a ídéia da arquitetura que realmente importa, mas a efetiva formação de um saber-conhecer. Há algo de novo em tudo, como há algo de constante e regular, mas também há o imprevisto, o instável, o inacabado, como ele disse. A polifonia é o concerto de uma completude, plena e inacabada.

Dostoiévski era profundamente original, é disso que Bakhtin chama a nossa atenção, mas esse valor - profundamente original - refere-se a um estudo artístico, ou seja, Bakhtin como filólogo está dizendo que Dostoiévski levou a arte literária ao seu mais alto grau, à criação de um mundo, de um universo, o universo da obra de Dostoiévski. Mas, para isso, Bakhtin deve ser também profundamente original em sua análise crítica, em suas percepções, em suas inquietações mais profundas. É preciso ter o filtro, a lente e o receptáculo da arte do grande escritor russo, e estudar também o que outros já disseram sobre esses assuntos.

Ler este livro é como mergulhar em uma outra dimensão, existente, porém quase inalcançável, quase inatingível, provavelmente enredando-se e desdobrando-se pelos sítios mais inexplorados da realidade de nossa existência, e de nosso conhecimento.

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