A importância da análise das personagens da obra de Dostoiévski para os estudos da Linguagem está em compreender de que modo a autoconsciência dessas personagens se elabora discursivamente e de modo polifônico (várias vozes do discurso, distintas vozes compondo a identidade das personagens. Ela elucida o ser discursivo que envolve toda a obra literária (o autor e o leitor-receptor, como seres reais de um sistema literário, e a obra propriamente dita, inalienável da realidade representada e povoada de seres, todos permeados e concebidos no discurso, na palavra). É um estudo que aponta para a rede discursiva como o espaço social sensível e vivo em que o ser é definido, sem contudo se completar, ou seja, o ser humano, como ser de fala, nasce dentro da palavra, e não o oposto. Sem haver previamente o discurso já organizado e predominante, não nasceria o ser.
Dessa forma, a personagem dostoievskiana, segundo a análise de Bakhtin, nasce caracterizada por uma habilidade de ação inusitada, na composição da trama literária. Sua atuação tem sempre como base esse estar da autoconsciência em oposição direta e inseparável com as linhas discursivas que atravessam a todo momento toda a representação da obra. E um conflito aberto e profundo com as outras personagens, sejam elas cordiais ou hostis umas com as outras. Como disse Bakhtin, " o dominante da representação do herói continua o mesmo: a autoconsciência. Por isso mesmo, o discurso sobre o mundo se funde com o discurso confessional sobre si mesmo. A verdade sobre o mundo é inseparável da verdade do indivíduo."
E é essa posição das personagens em confluência com o mundo que vai definir o originalíssimo conjunto ideológico de que Bakhtin se vale em suas análises, e que por si só já vale como um grande campo de discussão e conhecimento.
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